segunda-feira, 5 de setembro de 2011

CAPITÃO AMÉRICA: O FIM DO SONHO AMERICANO


Primeira parte

No mês julho estreou nos cinemas brasileiros o filme Capitão América: o primeiro vingador. Apesar da boa receptividade no Brasil, como no resto do mundo, os produtores temiam pela rejeição do filme devido ao caráter patriótico do herói.

Mesmo com esse temor, a crítica não foi de toda negativa. Em muitos jornais ela foi semelhante: O diretor fez um filme de aventura, como Indiana Jones. Penso que foi isso mesmo e por isso não deixa de ser um bom filme. Nada sensacional, mas bom.

Joe Johnston, diretor do filme, não é um diretor que podíamos esperar muito, é só olhar sua trajetória: Querida, Encolhi as Crianças, Rocketeer e Jurassic Park III. Nada espetacular.

O filme se resume a um prelúdio dos Vingadores. Chris Evans, que interpreta o capitão América conseguiu mostrar a personalidade séria, trágica e “inocente” do herói.

A história se manteve fiel e segue a linha editorial da Marvel. Um herói que luta por valores universais, como verdade, justiça e liberdade.

O nazismo é mostrado com um “mal” absoluto. O caveira vermelha é usado como exemplo de soldado nazista. Não se deu destaque merecido ao parceiro do Capitão América, Buck, que perde espaço para Tomy Lee Jones, o pai de Tony Stark (Homem de ferro) e para a agente Peggy Parker. No mais, quem leu os quadrinhos sabe como a história se desenvolve.

Um voluntário de guerra se oferece para passar por uma experiência de criação de um super soldado, que irá lutar contra o nazismo.

Houve jornais que criticaram a esquiva que o filme fez em não entrar nos detalhes da história nazista e que o melhor capitão América seriam os bastardos inglórios, de Quetin Tarantino, pois representa a personalidade ofensiva da América.

Acredito que isso poderia acontecer, mas não seria fiel a história das HQs. Esteve Rogers, nome do capitão América, franzino, mas com coragem e vontade de lutar é o que faz dele um herói. Essa, como já disse é a linha editorial.

A ingenuidade dos artistas não é algo criminoso, mas comum. Eles escolhem um lado e Criam boas histórias a partir do que eles conhecem e acham ser correto. Acredito que os criadores do Capitão e Evans fizeram isso. Organizaram uma história a partir do que eles conheciam. Não fizeram do herói um agente descarado do imperialismo, mas também não esconderam totalmente seu patriotismo. Isso, como nós veremos mais à frente é a linha editorial da Marvel.

O nascimento do Capitão América

No ano de 1941 os nazistas tinham ocupado grande parte do território Europeu. Os aliados haviam sofrido grandes derrotas. A França tinha metade de seu território ocupado. A suástica de Hitler opunha derrotas a poderosa a foice e o martelo da União Soviética.  A Inglaterra era bombardeada.

Em dezembro do mesmo ano, os Estados Unidos sofrem um ataque em seu território. A base de Perhal Habor, no Hawaii é atacada pelos japoneses.  A segunda guerra mundial teria agora envolvidos, diretamente, todas as grandes burguesias e a União Soviética.

O mundo que havia passado por uma crise financeira em 1929, enfrentava agora uma guerra mundial. O manifesto da quarta internacional[1], sobre a guerra imperialista e a revolução proletária mundial, afirmava: “A causa imediata da guerra atual é a rivalidade entre os velhos ricos impérios colonizadores, Grã Bretanha e França, e os ladrões imperialistas que chegaram atrasados, Alemanha e Itália”.

Como a primeira guerra mundial, a segunda foi motivada pela disputa por matérias primas, mercados e colônias. As burguesias mundiais necessitavam eliminar a concorrência, não somente com tarifas ou rebaixamento dos preços, era preciso destruir fisicamente os inimigos. 

 Nesse sentido os aliados, ao ver a inevitabilidade da guerra começam o chamamento pela defesa da “pátria” e dos “interesses da nação” para assim enviar tropas à guerra.

Nesse contexto surgiu a primeira edição da HQ do Capitão America, que tem em sua capa o herói esmurrando Hitler. Talvez o sentido da imagem seja dizer: iremos a Berlim esmurrar os nazistas.

Criado por Joe Simon e Jack Kirby, em 1941 o personagem é produto do sentimento de defesa nacional que vivia os Estados Unidos. Isso explica as cores de sua roupa e forma de agir. É simples acusar o capitão America de imperialista, mas isso não explica sua origem.

Os artistas, que o criaram são seres humanos e como todos os seres humanos eles são influenciados pelo meio. O mundo vivia com medo da suástica, que para as pessoas comuns simbolizava o mal. O nazismo impiedosamente havia matado milhares de pessoas e lhes arrancado a liberdade. Os burgueses norteamericanos vendiam a imagem do nazismo como o inferno na terra.

Quando Timely Comics, empresa que viria a se tornar a Marvel, encarregou Joe Simon e Jack Kirb de criar um herói patriótico, os dois responderam ao chamado de defesa da pátria contra o nazismo. Eles escolheram ficar ao lado da propaganda Norteamericana contra o Eixo. Mesmo não sendo soldados os dois serviram na guerra imperialista.

<b>O mito do Capitão America</b>
O Capitão América sempre aparece nas histórias em que interage com os outros heróis, como um mito. Um exemplo para os seus companheiros. Ter lutado contra Hitler lhe dá não só medalhas, mas respeito. Todos vêm o Capitão America como à personificação dos ideais da burguesia norteamericana.

Nesse sentido[2], Simon e Kirby deram ao herói a imagem que a propaganda pró-norteamericana e antinazista necessitava, mas ocultaram que o nazismo era o capitalismo levado às ultimas consequências. 
Os autores criaram a personagem se baseando em uma história de jornal sobre um jovem que queria se alistar, mesmo que o departamento médico do exército o tivesse considerado inapto.

Assim os autores pensaram o enredo sobre um jovem franzino, que queria se alistar. Ele faria parte de um experimento secreto dos Estados Unidos para criar um super soldado. Em tese ele seria o primeiro de muitos, mas um espião nazista mata o cientista que cria o experimento e ele acaba sendo o único.

Assim nascia um símbolo que iria inspirar os norteamericanos na luta contra o “mal” do Nazismo, escondendo dos olhos do povo o “mal” que representava o imperialismo e a ganância do capital norteamericano. E em um país onde era difícil encontrar alguém que não tinha algum conhecido na guerra, ter um símbolo como o capitão, um super soldado, inspirava. Principalmente as crianças a quem a HQ era direcionada e os soldados para quem ela foi distribuída na guerra.

Assim o capitão rumava à Berlim. Kirby lhe deu o uniforme com as cores da bandeira americana e o escudo. “Nos defendemos apenas, não atacamos”-  era o que simboliza o escudo. Além disso, usar uma arma nessa época era tabu nas HQs.

O caveira vermelha e o “mau do nazismo”

Se símbolo da América era o Super-Soldado uniformizado com as cores da bandeira americana. O inimigo era o mau em pessoa, um vilão que trabalhava diretamente para Hitler. O Caveira Vermelha representava a imagem que os Estados Unidos queriam vender de seus inimigos.

É algo comum nas HQs ou nos filmes norteamericanos. Pintar os inimigos da América de maneira não muito agradável. A imagem do Caveira Vermelha é mostrada como um resultado de um experimento movido pela sede de poder.

Enquanto a América, para enfrentar os nazistas tinha um loiro alto e forte e que tinha um “coração” puro. A Alemanha tinha a imagem da morte na cor vermelha. Assim O Caveira Vermelha era o “mal” e o Capitão América o “bem”.

Não era a imagem de Hitler quem eles queriam representar somente, mas do povo alemão. Dessa forma nos mostram não só os talibãs, mas os árabes, sempre vilões, assim como era feito com os índios nos filmes do velho oeste.

Isso se explica pela necessidade que a classe dominante tem em mostrar sua ideologia como à melhor e a mais adequada para todos. Ela precisa dos trabalhadores para fazer a guerra, afinal Ford ou os Rockefellers[3] não conseguiriam empunhar armas e nem queriam.

O nazismo é produto da luta de classes

São nas crises que as diferenças entre as classes sociais se acentuam. Fica mais claro que uma grande massa trabalha e a outra explora.  Surgem milhões de exemplos claros aos olhos de todos que o capitalismo só serve aos ricos banqueiros, empresários e latifundiários e que os trabalhadores, que geram a riqueza, nada recebem. 

A crise do sistema capitalista de 1929 gerou desemprego e miséria para todos os países. As pessoas perderam a fé no capitalismo assim como muitos perderam o emprego. Na Alemanha crescia as simpatias nas idéias comunistas, mas também crescia as simpatias pelas idéias nazistas. As pessoas buscavam uma alternativa ao sistema falido.

O Nazismo chegou ao poder em 1932 graças à traição do partido comunista alemão, que durante todo o período desde nascimento do partido de Hitler não tomou uma postura clara de unidade dos trabalhadores contra os nazistas.

Enquanto os comunistas se baseavam na classe trabalhadora, os nazistas se baseavam na pequena burguesia, pequenos comerciantes, empresários e profissionais liberais. Eles se utilizavam do receio que essa classe média tinha dos comunistas para fortalecer suas posições.

Os comunistas tinham um grande partido e se baseavam nos trabalhadores, mas não tinham todos ao seu lado. A maioria deles estava com a Social Democracia. Esses dois partidos juntos tinham a maioria no parlamento e a maioria da classe trabalhadora e poderiam ter derrotado os Nazistas. O grande problema deles foi seu oportunismo e sectarismo.

O partido comunista era orientado, nessa época, pela terceira internacional, organização que havia sido fundada por Lênin e Trotsky para organizar a revolução mundial. Infelizmente essa expectativa foi frustrada, pois os trabalhadores foram traídos pelas suas direções.

Isso gerou uma crise na União Soviética, pois o país ficou cada vez mais isolado. Lênin morre em 1924 e Trotsky é exilado, em 1927. Com isso, Stálin dirige o país e a internacional a partir de seus interesses e de seus amigos burocratas, levando assim a derrota de várias revoluções no mundo todo.

Hiltler se utilizou do medo das classes médias da revolução comunista e se aproveitou da divisão da esquerda para chegar ao poder. A unidade desses dois partidos sobre a base de um programa revolucionário impediria a ascensão nazista, mas isso não aconteceu. Stálin, presidente da União Soviética, preferia deixar os nazistas chegarem ao poder, que se unir com os Sociais Democratas.

Não há como falar em “mal” nazista ou “bem” liberal. O que existe é um sistema de classes.  Reduzir essa luta entre o Bem ou Mal é simples, mas não explica nada. O Nazismo é a última cartada da burguesia para evitar a revolução proletária, por isso, sua principal ação foi esmagar as organizações da classe trabalhadora.




[1] Trotsky, león. Programa de Transición. México. 1° Ed. Centro de estúdios Carlos Marx, 2010. 
[2] Todas as informações sobre a história da HQ do herói foram retiradas do site: http://www.universohq.com
[3] Grandes empresários norte americanos

domingo, 31 de julho de 2011

Interpol - Stella Was a Diver and She Was Always Down (live)

nterpol - Stella Was A Diver And She Was Always Down
(Tradução)

Stella era uma mergulhadora e estava sempre abaixo


Quando ela caminha pela rua
Ela sabe que existem pessoas
a espiando
As frentes dos prédios são somente frentes
Para esconder as pessoas a espiando

Mas uma vez ela
caiu na rua
Num bueiro naquele caminho ruim
As goteiras do subsolo
Era como seus tempos de mergulho

Dias
Vergonha
Dias
Vergonha

Ela estava bem porque o mar era tão impermeável, ela
fugiu
Ela estava bem mas ela não pode sair hoje à noite,
ela
fugiu
Ela estava bem porque o mar era tão resistente,
impermeável

Ela fugiu, fugiu


No fundo do mar ela
reside
No fundo do mar ela reside
De fendas
acariciadas por dedos
Em inchaços de serpentes gordas e
azuis
Stella, Stella, Stella, Stella eu te amo

Ela estava bem porque o mar era tão impermeável, ela
fugiu
Ela estava bem mas ela não pode sair hoje à noite,
ela
fugiu
Ela estava bem porque o mar era tão resistente,
impermeável
Ela fugiu, fugiu

Bem, ela era meu
brinquedo sexual catatônico, mergulhadora de amor e
prazer
Ela ia fundo, fundo, fundo lá no oceano
Sim, ela ia
fundo, fundo, fundo lá, fundo por mim. Vamos lá!

Muito bom! Sim! Vamos lá!

(Há uma coisa que é
invisível
Há coisas que você não pode esconder
Tentar
te detectar quando eu estou dormindo
Num aceno você diz
adeus...



domingo, 24 de julho de 2011

Amy....


terça-feira, 19 de julho de 2011

Sinal Divino


sábado, 16 de julho de 2011

Não vou me adaptar


Conversei com uma amiga sobre a mudança nas pessoas. Talvez seja a única certeza absoluta que podemos ter. Nada dura para sempre, tudo perece frente ao tempo. Tudo tem um início, meio e fim. Tudo tem que mudar. E um grego já sabia disso há muito tempo.

Com as pessoas é assim. Muitos nascem cristãos, mas morrem ateus. Nascem descrentes e morrem crentes. O fim assusta. Logo, por mais que nosso conhecimento diga que muitas coisas estão erradas e não são reais.  A pressão do meio é mais forte, muitos se adaptam.

Como a água toma a forma do recipiente, muitos preferem tomar a forma do meio. Preferem se deixar levar pelas margens opressoras, como dizia um poeta alemão.

Não condeno aqueles que assim preferem. Cada um sabe a cruz que carrega, mas não posso aceitar isso. Muitas vezes, conheço alguns exemplos, isso significa o fim da personalidade.

Desistem de lutar, por estarem calejados, por não conseguirem enxergar uma saída ou por quererem se livrar do incomodo. Trocam a farda pela vida civil. Não conseguem ver sentido nas dúvidas, mas vem na certeza de um cotidiano comum, sem nada além da simples rotina.

A idade é o grande vilão disso tudo. Ela pressiona, arrasta e pesa frente ao tempo. Ela nos amarra pesos aos pés que não nos deixam caminhar.

Não vou me adaptar, não deixarei me moldar. Se for preciso mudar, que seja o campo da batalha, que aprofunde os conceitos já assimilados e que a mudança vá ao encontro de nossa utopia.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A MELHOR PROFISSÃO DO MUNDO

"Há uns cinqüenta anos não estavam na moda escolas de jornalismo. Aprendia-se nas redações, nas oficinas, no botequim do outro lado da rua, nas noitadas de sexta-feira. O jornal todo era uma fábrica que formava e informava sem equívocos e gerava opinião num ambiente de participação no qual a moral era conservada em seu lugar." 

"Não haviam sido instituídas as reuniões de pauta, mas às cinco da tarde, sem convocação oficial, todo mundo fazia uma pausa para descansar das tensões do dia e confluía num lugar qualquer da redação para tomar café. Era uma tertúlia aberta em que se discutiam a quente os temas de cada seção e se davam os toques finais na edição do dia seguinte. Os que não aprendiam naquelas cátedras ambulantes e apaixonadas de vinte e quatro horas diárias, ou os que se aborreciam de tanto falar da mesma coisa, era porque queriam ou acreditavam ser jornalistas, mas na realidade não o eram." 

"O jornal cabia então em três grandes seções: notícias, crônicas e reportagens, e notas editoriais. A seção mais delicada e de grande prestígio era a editorial. O cargo mais desvalido era o de repórter, que tinha ao mesmo tempo a conotação de aprendiz e de ajudante de pedreiro. O tempo e a profissão mesma demonstraram que o sistema nervoso do jornalismo circula na realidade em sentido contrário. Dou fé: aos 19 anos, sendo o pior dos estudantes de direito, comecei minha carreira como redator de notas editoriais e fui subindo pouco a pouco e com muito trabalho pelos degraus das diferentes seções, até o nível máximo de repórter raso. 

A prática da profissão, ela própria, impunha a necessidade de se formar uma base cultural, e o ambiente de trabalho se encarregava de incentivar essa formação. A leitura era um vício profissional. Os autodidatas costumam ser ávidos e rápidos, e os daquele tempo o fomos de sobra para seguir abrindo caminho na vida para a melhor profissão do mundo - como nós a chamávamos. Alberto Lleras Camargo, que foi sempre jornalista e duas vezes presidente da Colômbia, não tinha sequer o curso secundário. 

A criação posterior de escolas de jornalismo foi uma reação escolástica contra o fato consumado de que o ofício carecia de respaldo acadêmico. Agora as escolas existem não apenas para a imprensa escrita como para todos os meios inventados e por inventar. Mas em sua expansão varreram até o nome humilde que o ofício teve desde suas origens no século XV, e que agora não é mais jornalismo, mas Ciências da Comunicação ou Comunicação Social. 

O resultado não é, em geral, alentador. Os jovens que saem desiludidos das escolas, com a vida pela frente, parecem desvinculados da realidade e de seus problemas vitais, e um afã de protagonismo prima sobre a vocação e as aptidões naturais. E em especial sobre as duas condições mais importantes: a criatividade e a prática. 

Em sua maioria, os formados chegam com deficiências flagrantes, têm graves problemas de gramática e ortografia, e dificuldades para uma compreensão reflexiva dos textos. Alguns se gabam de poder ler de trás para frente um documento secreto no gabinete de um ministro, de gravar diálogos fortuitos sem prevenir o interlocutor, ou de usar como notícia uma conversa que de antemão se combinara confidencial. 

O mais grave é que tais atentados contra a ética obedecem a uma noção intrépida da profissão, assumida conscientemente e orgulhosamente fundada na sacralização do furo a qualquer preço e acima de tudo. Seus autores não se comovem com a premissa de que a melhor notícia nem sempre é a que se dá primeiro, mas muitas vezes a que se dá melhor. Alguns, conscientes de suas deficiências, sentem-se fraudados pela faculdade onde estudaram e não lhes treme a voz quando culpam seus professores por não lhes terem inculcado as virtudes que agora lhes são requeridas, especialmente a curiosidade pela vida. 

É certo que tais críticas valem para a educação geral, pervertida pela massificação de escolas que seguem a linha viciada do informativo ao invés do formativo. Mas no caso específico do jornalismo parece que, além disso, a profissão não conseguiu evoluir com a mesma velocidade que seus instrumentos e os jornalistas se extraviaram no labirinto de uma tecnologia disparada sem controle em direção ao futuro. 

Quer dizer: as empresas empenharam-se a fundo na concorrência feroz da modernização material e deixaram para depois a formação de sua infantaria e os mecanismos de participação que no passado fortaleciam o espírito profissional. As redações são laboratórios assépticos para navegantes solitários, onde parece mais fácil comunicar-se com os fenômenos siderais do que com o coração dos leitores. A desumanização é galopante. 

Não é fácil aceitar que o esplendor tecnológico e a vertigem das comunicações, que tanto desejávamos em nossos tempos, tenham servido para antecipar e agravar a agonia cotidiana do horário de fechamento. 

Os principiantes queixam-se de que os editores lhes concedem três horas para uma tarefa que na hora da verdade é impossível em menos de seis, que lhes encomendam material para duas colunas e na hora da verdade lhes concedem apenas meia coluna, e no pânico do fechamento ninguém tem tempo nem ânimo para lhes explicar por que, e menos ainda para lhes dizer uma palavra de consolo. 

"Nem sequer nos repreendem", diz um repórter novato ansioso por ter comunicação direta com seus chefes. Nada: o editor, que antes era um paizão sábio e compassivo, mal tem forças e tempo para sobreviver ele mesmo ao cativeiro da tecnologia.

A pressa e a restrição de espaço, creio, minimizaram a reportagem, que sempre tivemos na conta de gênero mais brilhante, mas que é também o que requer mais tempo, mais investigação, mais reflexão e um domínio certeiro da arte de escrever. É, na realidade, a reconstituição minuciosa e verídica do fato. Quer dizer: a notícia completa, tal como sucedeu na realidade, para que o leitor a conheça como se tivesse estado no local dos acontecimentos." 

"O gravador é culpado pela glorificação viciosa da entrevista. O rádio e a televisão, por sua própria natureza, converteram-na em gênero supremo, mas também a imprensa escrita parece compartilhar a idéia equivocada de que a voz da verdade não é tanto a do jornalista que viu como a do entrevistado que declarou. Para muitos redatores de jornais, a transcrição é a prova de fogo: confundem o som das palavras, tropeçam na semântica, naufragam na ortografia e morrem de enfarte com a sintaxe. 

Talvez a solução seja voltar ao velho bloco de anotações, para que o jornalista vá editando com sua inteligência à medida que escuta, e restitua o gravador a sua categoria verdadeira, que é a de testemunho inquestionável. De todo modo, é um consolo supor que muitas das transgressões da ética, e outras tantas que aviltam e envergonham o jornalismo de hoje, nem sempre se devem à imoralidade, mas igualmente à falta de domínio do ofício. 

Talvez a desgraça das faculdades de Comunicação Social seja ensinar muitas coisas úteis para a profissão, porém muito pouco da profissão propriamente dita. Claro que devem persistir em seus programas humanísticos, embora menos ambiciosos e peremptórios, para ajudar a constituir a base cultural que os alunos não trazem do curso secundário. 

Entretanto, toda a formação deve se sustentar em três vigas mestras: a prioridade das aptidões e das vocações, a certeza de que a investigação não é uma especialidade dentro da profissão, mas que todo jornalismo deve ser investigativo por definição, e a consciência de que a ética não é uma condição ocasional, e sim que deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro. 

O objetivo final deveria ser o retorno ao sistema primário de ensino em oficinas práticas formadas por pequenos grupos, com um aproveitamento crítico das experiências históricas, e em seu marco original de serviço público. Quer dizer: resgatar para a aprendizagem o espírito de tertúlia das cinco da tarde. 

Um grupo de jornalistas independentes estamos tratando de fazê-lo, em Cartagena de Indias, para toda a América Latina, com um sistema de oficinas experimentais e itinerantes que leva o nome nada modesto de Fundação do Novo Jornalismo Ibero-Americano. É uma experiência piloto com jornalistas novos para trabalhar em alguma especialidade - reportagem, edição, entrevistas de rádio e televisão e tantas outras - sob a direção de um veterano da profissão." 

"A mídia faria bem em apoiar essa operação de resgate. Seja em suas redações, seja com cenários construídos intencionalmente, como os simuladores aéreos que reproduzem todos os incidentes de vôo, para que os estudantes aprendam a lidar com desastres antes que os encontrem de verdade atravessados em seu caminho. Porque o jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade. 

Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte."

(Publicado no Observatório da Imprensa. Agradecemos a Luís Antônio Nikão Duarte, da Agência Jornal do Brasil, o envio do texto original do discurso de García Márquez.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Arcade Fire - The Suburbs