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sexta-feira, 31 de julho de 2009

Matéria da UOL sobre a Falskô

31/07/2009 - 07h07 Única fábrica ocupada do Brasil rema contra a maré e quer estatização Rodrigo Bertolotto Do UOL Notícias Em Sumaré (SP) No Uruguai, a lista inclui uma confecção de ternos. Na Argentina, as mais de 60 empresas ocupadas pelos trabalhadores contam com sorveterias, hotéis, jornais, fábricas de empanada e até uma escola maternal e um hospital israelita. Na Venezuela de Hugo Chávez, que anuncia expropriações às dúzias, multinacionais, como a japonesa Mitsubishi e a norte-americana Cargill, viraram os alvos. Já no Brasil uma indústria em Sumaré, município vizinho a Campinas (SP), é a única representante dentro do Movimento de Fábricas Ocupadas, uma espécie de versão industrial do MST. Boa parte das dívidas da Flaskô correspondia aos salários atrasados e aos diversos direitos trabalhistas (férias, FGTS e INSS) dos próprios trabalhadores. À época, outras duas fábricas dos irmãos Batschauer (a Cipla e a Interfibra) já estavam ocupadas em Joinville (SC) após meses de atraso no pagamento e greve dos trabalhadores. Sem contar as que viraram cooperativas, cerca de 40 indústrias no Brasil já estiveram sob gestão operária por algum tempo. Mas acabaram fechadas ou sob administração judicial, como aconteceu com a dupla de empresas catarinenses. O mesmo interventor designado pela Justiça para sanear a administração da Cipla e da Interfibra, Rainoldo Uessler, quis entrar em julho de 2007 na Flaskô, mas foi enxotado. "A peãozada ficou revoltada e botou o cara para fora", resume Osvaldo Costa Neto, que cuida do setor de expedição e atende pelo apelido de Shaolin. "Ele saiu com o terno amarrotado. Teve que receber uns sopapos para se tocar", completa Aldemir Tavares - ou Dema, o coordenador de vendas (leia entrevista com o interventor ao lado). Os 58 funcionários decidiram em assembléia a expulsão do interventor. E é na base do voto que eles decidem tudo no dia-a-dia. O faturamento gira em torno a R$ 180 mil: R$ 60 mil vão para pagar a energia elétrica, R$ 60 mil para a matéria-prima e outros R$ 60 mil para a folha de pagamento. Nessa situação, quando uma máquina quebra e seu conserto custa R$ 30 mil, o jeito é deixá-la de lado. Quando a conta de luz vem alta, os trabalhadores abrem mão de parte do salário para que não cortem o fornecimento, como aconteceu há dois anos quando, a produção foi paralisada por conta de uma dívida dos antigos patrões - uma negociação com a CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz) parcelou o que era devido. "Sem luz, as máquinas não funcionam, e a fábrica se acaba. Então é melhor apertar o cinto da gente", define Eliseu Domingues, que trabalha há 16 anos na firma e é agora líder de produção. A situação é definida por Wanderci Bueno, liderança da ocupação: "Como não temos capital de giro, vendemos o almoço para comprar a janta." Com microfone em punho, Bueno liderou neste mês a passeata dos empregados pelas ruas de Campinas até a sede regional da Procuradoria da Fazenda para impedir a decisão de que 97% do faturamento da Flaskô sejam usados para pagar a dívida com a União, o que, na prática, inviabiliza a fábrica. Reforçados por estudantes de medicina, sem-teto e desempregados, o cortejo barulhento desfilou com faixas com os dizeres como "Ocupar, Resistir, Produzir" ou "Estatização das Fábricas Ocupadas". A conquista imediata foi ganhar tempo, como aconteceu com os 208 leilões de equipamentos e instalações que conseguiram impedir com o mesmo método. "Para cada protesto é um dia de trabalho perdido. Mas é o jeito de manter a Flaskô em funcionamento", crava Edvaldo Sobrinho, com um boné são-paulino na cabeça e dez anos de trajetória como operador de máquina na indústria agora ocupada. Cada adiamento é uma solução paliativa. O desfecho sonhado por eles, mas pouco provável, seria virarem funcionários públicos, após uma estatização da fábrica com gestão operária. Não querem virar cooperativa, o que significaria arcar com as dívidas e ficar sem os direitos trabalhistas atrasados. Os trabalhadores foram até Brasília para pedir em audiência pública aos deputados que criem uma lei que permita que as indústrias quebradas sejam encampadas com ajuda do poder público e passem para as mãos de seus trabalhadores, o que já acontece na Argentina liderada pelo casal Kirchner e na Venezuela de Hugo Chávez. No encontro, estava presente representante do ministério do Trabalho. O governo Lula, porém, não acena com algo parecido. "Na campanha de 2002, ele encontrou o pessoal da Cipla e prometeu apoio. Agora ele virou as costas", se queixa Bueno. A onda de privatizações do governo FHC (1995-2002) foi freada no governo petista. Lula, contudo, não foi para o lado da estatização ao gosto atual de Chávez ou ao estilo do regime militar brasileiro, de 1964 a 1985, quando 70% da economia estava nas mãos do Estado. Sem o apoio de Lula, foi saudar outro patrono: uma comitiva da Flaskô foi em junho para Caracas participar do 2º Encontro Latino-Americano de Fábricas Recuperadas pelos Trabalhadores, que aconteceu mês passado (a terceira edição está marcada em 2010 para Buenos Aires). Lá, o governo venezuelano anunciou a nacionalização de mais 20 indústrias. Operador de máquina, Manuel Carvalho voltou entusiasmado da nação vizinha: "Se fecharem aqui, vou mudar para lá. Chávez é nosso aliado." O operário uniformizou a família com os souvenires do "socialismo do século 21": ele e a mulher portavam camisetas chavistas (R$ 10 cada) e o filho enfeitava a cabeça com um boné de beisebol com "república bolivariana" bordada na frente (R$ 3). Em 2006, Chávez entrou no enredo brasileiro, fornecendo matéria-prima em troca de know-how. A Venezuela vendeu polímeros feitos a partir de seu petróleo, base para formar os utensílios que as indústrias ocupadas produziam. Em troca, os brasileiros ajudaram a montar a Petrocasa, uma indústria de módulos plásticos para casas populares. Por meio da Cipla, a Flaskô recebeu 56 toneladas de matéria-prima caribenha. A fonte secou quando a Polícia Federal entrou na Cipla após a Justiça Federal de Santa Catarina determinar que a administração ficaria na mão do interventor Uessler. Até ali, a fábrica catarinense se mantivera graças ao contrato com a Mercedes-Benz, para quem fornecia a estrela de três pontas que dá fama a marca. À época, a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) classificou essa conexão entre Caracas e Joinville como "ingerência em assuntos internos brasileiros". Um discurso de esquerda perpassa pelas faixas de protesto ("Socialismo ou Barbárie"), no gabinete de Pedro Santinho, coordenador do conselho da Flaskô (com pôsteres de Marx e Lênin), mas nas entrevistas fica claro que é dentro do sistema capitalista que buscam a sobrevivência. "A gente pode gerenciar o que produz, mas na hora de ir para o mercado temos as mesmas dificuldades que os executivos, os patrões", conta Antônio Araújo, o Toninho, um ferramenteiro que luta para que os equipamentos não virem sucatas dentro da planta fabril. Análises, pesquisas e trabalhos acadêmicos feitos na Argentina, onde a crise econômica crônica a partir de 2001 fez 10 mil pessoas atuarem em fábricas ocupadas, mostrou que o pragmatismo é a tônica. Apesar de uma certa ideologia anticapitalista, a preocupação principal é a manutenção do emprego, e o triunfo que encontraram foi uma "humanização" do ambiente, com mais espaço para decisão, melhoria no refeitório e uso do espaço para atividades sociais e culturais nos finais de semana, por exemplo. Um levantamento feito pelo Instituto Gino Germani, da Universidade de Buenos Aires, apontou que 90% dos trabalhadores de "fábricas recuperadas" (expressão usada nos países de fala espanhola) eram contra a ocupação de fábricas produtivas. A própria Flaskô utiliza uma espécie de "terceirização do bem", nas palavras de Dema: 70% de seu movimento é uma prestação de serviço, com empresas parceiras entrando com o insumo e requisitando mão-de-obra especializada e o maquinário da indústria de Sumaré. Os salários obedecem a hierarquia do tempo dos patrões, e os reajustes determinados pelo sindicato dos químicos foi aplicado. Sem engenheiros ou executivos circulando no chão de fábrica, os ordenados vão de R$ 1.000 a R$ 2.000, por uma carga horária de 30 horas semanais. A crise entre o final do governo de Fernando Henrique Cardoso e o começo do comando de Lula fez pipocarem fábricas ocupadas no país, mas um refluxo aconteceu com a bonança econômica dos anos seguintes. A crise global detonada em 2008 poderia ser o prenúncio de nova leva de ocupações fabris. Entretanto, a Flaskô segue sozinha no Movimento das Fábricas Ocupadas, e em meio a sua pendenga jurídica. Por um lado, os irmãos Batschauer foram condenados a três anos de prisão em regime aberto por sonegar impostos à União e por tomarem a contribuição previdenciária dos seus funcionários. Por outro, um oficial de Justiça foi à casa do coordenador Santinho para penhorar seus bens pela dívida na empresa, mas como só encontrou uma TV e uma geladeria, saiu de mãos abanando. A Procuradoria da Fazenda cobra por dívidas que passam dos R$ 126 milhões. A batalha de ações inclui também o interventor e os líderes ocupantes, em processos cruzados em que o papel de réu e acusador são invertidos. No meio de tantos leilões, passeatas, juízos e ameaças, o futuro da Flaskô é incerto. O único que se sabe é que o presente é vermelho, tanto na contabilidade quanto na ideologia. Fonte: http://noticias.uol.com.br/politica/2009/07/31/ult5773u1834.jhtm

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