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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Crise do euro reabre debate sobre relações entre Estado e imprensa



Mais de 100 jornais italianos estão ameaçados de fechar as portas agora no início de 2012 em consequência da suspensão dos subsídios fornecidos pelo Estado como parte de um esforço de quase 50 anos para diversificar a informação no país.

O corte de 2/3 dos 170 milhões de euros (404,6 milhões de reais) em subsídios anuais à imprensa italiana foi imposto ainda no governo de Silvio Berlusconi e mantido pelo atual primeiro-ministro Mario Monti como parte do programa de austeridade destinado a evitar o caos econômico no país.

O corte afetará especialmente os jornais locais e a imprensa oposicionista de tendência socialista, pois os grandes veículos continuam usufruindo vantagens como anistia fiscal e tarifas postais reduzidas, mesmo perdendo também o subsídio direto.

Desde o fim de dezembro, os jornalistas do Liberazione estão acampados na redação para tornar pública a sua resistência ao fechamento. O jornal, ligado ao Partido Comunista Refundado (dissidentes do antigo PC italiano), já não é mais impresso e transformou-se em publicação online.

Idêntico destino ameaça os também oposicionistas Il Manifesto (socialista independente) e L’Unitá (o outrora influente jornal do PC italiano). O Il Manifesto foi fundado em 1969 e ao longo de toda a sua história foi um crítico mordaz da linha soviética do PC italiano, bem como um jornal famoso por sua ironia e criatividade. Outro ameaçado, o L’Unitá, foi fundado em 1924 pelo filósofo italiano Antonio Gramsci como jornal oficial do PCI. Depois da queda do fascismo, foi o jornal da maioria dos grandes intelectuais italianos.

Mas não é só na esquerda que o corte de subsídios está provocando uma mortandade de jornais. OAvvenire, fundado em 1968 por iniciativa do então Papa Paulo VI, é o jornal semioficial da igreja católica italiana, enquanto o Avanti!, fundado em 1896 como um matutino socialista, mais tarde mudou de linha e, no governo passado, era dirigido por Walter Lavitola — um amigo pessoal do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, igualmente acusado de corrupção.

A esmagadora maioria dos jornais ameaçados de fechamento é formada por pequenas e médias publicações impressas regionais e locais, além de emissoras provinciais de rádio. As razões econômicas para justificar o fim dos subsídios à imprensa italiana são comuns às já usadas para promover os programas de ajuste adotados na Grécia, Espanha, Irlanda e outros países europeus. Mas o caso italiano é mais significativo pelo vulto dos recursos e pelo fato de que o episódio recoloca em discussão as relações entre o Estado e a imprensa num momento em que esta última passa por uma crise inédita na sua história.

Na Europa, a imprensa sempre teve uma série de favores estatais, especialmente em Portugal, França, Itália e Espanha. A alegação era de que o subsídio estatal viabiliza a diversidade informativa num ambiente de desigualdade econômica. Hoje, o governo alega que a diversidade é menos importante do que a crise do euro provocada pelo endividamento público. Do ponto de vista contábil, o primeiro-ministro Mario Conti pode ter razão, mas as consequências do corte vão muito além de zerar um déficit.

É mais um elemento a ser levado em conta no debate sobre o futuro da imprensa no mundo. A crise de modelos de negócios acaba de fazer 100 vítimas no The New York Times. O jornal, que muitos consideram o líder na experimentação de novas fórmulas informativas, deu como presente de Natal a seus funcionários a demissão de 100 repórteres e redatores, elevando para 200 o número de profissionais que perderam o emprego desde 2008.

O corte é especialmente traumático para a imagem do jornal que até agora orgulhava-se de sua preocupação com a qualidade informativa e apresentava como garantia o fato de ter uma redação com 1.250 jornalistas efetivos, a mais populosa entre todos os jornais norte-americanos.

O Times ainda não achou o modelo ideal para sobreviver como jornal, mas já adotou a mesma fórmula de outras publicações: reduzir o efetivo da redação, uma medida que agrada à contabilidade mas temconsequências irreversíveis entre os leitores.

As relações futuras entre os Estados e a imprensa ainda são um tema cheio de incertezas e preconceitos. Mas a cada dia crescem os indícios de que como a produção de jornais tornou-se um negócio pouco lucrativo, os investidores tendem a procurar outros setores econômicos e o poder público terá que voltar a ser realmente público para atender à uma necessidade da população, que precisa de informação diversificada e livre de interesses comerciais e eleitorais.

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